O embate entre repórter, Vagner Mancini e uma necessidade: redescobrir o jornalismo esportivo no Brasil

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O confronto entre o técnico Vagner Mancini e o repórter Felipe Garraffa, da Rádio Bandeirantes virou o tema da hora. O embate do final de semana.

Por diversos artigos espalhados pela Web, certamente você deparou-se com pontos nevrálgicos e erros de parte a parte. A grosseria de Mancini na resposta, a falta de exatidão do jornalista na formulação da pergunta, as repercussões para defender uma parte como outra, além dos inevitáveis memes. Quero aproveitar este espaço para discutir o foco principal: o jornalismo esportivo em si.

De cara deixo claro: ilusão vender a imagem de que somos infalíveis. Pelo contrário. Formulamos perguntas ruins, escorregamos na formulação de determinada visão, somos equivocados na apuração de determinada notícia e pecamos até no acompanhamento dos treinamentos. Alguns ficam mais vidrados no cafezinho e na resenha oferecida do que na busca da notícia.

Existe, outro ponto que não queremos encarar: formação. Sim, formação. Lastro intelectual. Acúmulo de informações. Conteúdo. Não conheço o rapaz envolvido, mas algo posso dizer que devemos encarar futebol como pessoas de outras editorias encaram seus ofícios.

Como? Lendo, se informando, pesquisando e principalmente assistindo jogos. A reação do Vagner mancini tem uma outra conotação que passou batido. No no fundo, no fundo, ele quis transmitir o seguinte conceito: quantos jogos você assistiu do meu time para chegar a essa conclusão? Qual o seu parâmetro de análise? Só os últimos 90 minutos?

Levar a sério de jornalista esportivo é algo sacrificante. Acompanhar 10 jogos de Série A, o maximo de confrontos da Série B, ler jornais, sites, blogs, tentar fazer a leitura tática, etc…Para que? Para quando um técnico tentar dar um xeque mate você esteja preparado e provar que está embasado. Por que Paulo Vinicius Coelho tem o respeito de técnicos e dirigentes apesar de declaradamente palmeirense? Por que é um louco por informação. Apura com voracidade. E está sempre disposto a aprender sobre tática e estratégias de jogo. Para tudo isso certamente pagou um preço.

Dou meu testemunho pessoal. Em 2010, em uma entrevista coletiva eu perguntei pro Jorginho Catinflas, então técnico da Ponte Preta porque ele pretendia jogar com três volantes diante de um oponente na Série B.

Ele mandou de primeira: Como você me diz algo assim? Você sabe como o adversário joga? Por sorte eu tinha visto na televisão os três últimos confrontos da equipe em foco e descrevi esquema tático, posicionamento, jogadores. Jorginho fez cara de muxoxo e respondeu a pergunta.

Quem cobre qualquer clube ou participa de rodízio de cobertura, o seu mundo não pode se resumir aquilo que é determinado pela chefia. O futebol, assim como qualquer esporte, amplo e cheio de nuances. Por que ficar mergulhado apenas em uma, duas ou três instituições.

Existe um outro ponto gerado pelo episódio: praticamos jornalismo esportivo no Brasil? Quando digo jornalismo é aquele focado em denunciar as mazelas do poder estabelecido, apontar os equívocos de técnicos, dirigentes e jogadores e colaborar para o crescimento do ambiente em foco.

Pense comigo: qual foi a última reportagem de impacto do jornalismo esportivo? Qual matéria abalou as estruturas do poder? Eu aponto: a combinação de resultados que resultou no afastamento do árbitro Edílson Pereira de Carvalho. Em 2005. Lá se vão 12 anos!

Por que abordo este ponto? Porque na tentativa de desqualificar o jornalista, Mancini perguntou se o “algoz” era corinthiano.

Por que? Simples: ao longo de anos é décadas, o jornalismo esportivo foi tratado no Brasil como algo caricatural, como profissionais destinados a “defenderem” a camisa A, B ou C e não a cobrirem o setor com o rigor exigido pela profissão.

Querem uma prova? Quando é decidido montar determinada mesa redonda de televisão invariavelmente não se discute quais são os profissionais adequados para ocuparem tal distinção e sim busca-se o equilíbrio entre as partes. Ou seja: se for em Campinas, tem que buscar bugrino e pontepretano; se for no Rio Grande do Sul, colorado ou gremista. Uma distorção total de valores.

Tais problemas travam a formação de jornalistas com intenção de atuarem na área de esportes para fazerem diferença. Não falo de orelhada. Há alguns dias, recebi a seguinte mensagem de um jovem residente fora do estado de São Paulo e que prefiro deixar no anonimato: “Há algum tempo, assisti uma palestra online com aquele jornalista Jorge Ramos, que acabou sendo expulso de uma coletiva do Trump. O tema era: Por que os jornalistas têm a obrigação de desafiar o poder. (…) Agora, esses dias em uma aula da minha faculdade (…) um aluno me disse que o jornalista, principalmente repórter, deve ter trânsito livre para conseguir informações e etc. Fiquei na dúvida”.

Ao ler tal declaração fico inconformado como trânsito livre no jornalismo esportivo brasileiro é a tradução de bajulação e proteção ao objeto de cobertura. Medo de retaliação? Claro que todos nutrem. Mas com qual objetivo abraçamos a carreira? Para ganhar dinheiro, bajular poderosos ou exercer diferença na sociedade? Cada um busque sua resposta.

Em suma: o repórter da Rádio Bandeirantes vai seguir sua carreira e Vagner Mancini vai preocupar-se com o próximo jogo do Campeonato Brasileiro. Daqui a pouco vamos focar nossas preocupações em outros temas. E vamos ignorar uma necessidade urgente: fazer jornalismo esportivo de verdade no Brasil.

(Elias Aredes Junior)

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