Afinal, a trilogia “Matrix” é de esquerda ou de direita?

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“Não é possível explicar a ninguém o que é a Matrix. Você tem que ver com seus próprios olhos…”

– por André Lux, crítico-spam

É incrível o número de pessoas que dizem “adorar” a trilogia Matrix, mas que coçam a cabeça e fazem cara de interrogação quando confrontados com as várias alegorias e sub-textos dos filmes. Aí, quando você pergunta por que, afinal, gostam de Matrix, respondem algo como: “Pô, puta filmão! Tem um monte de tiro, porrada e efeitos especiais animais!”.

Sim, tem mesmo, mas além disso, a trilogia Matrix consegue passar nas entrelinhas sérios questionamentos sobre a realidade que nos cerca, inclusive política, sem precisar ser panfletário ou maniqueísta. Ou seja, diverte e faz pensar – aqueles que conseguem, é claro.

Na modesta opinião deste crítico, os irmãos Wachawsky fizeram um filme que pode ser considerado “de esquerda” porque questionam os princípios básicos dos mecanismos de dominação atuais usados pelas elites econômicas para escravizar o resto da população. O que é a Matrix, em última instância, senão uma óbvia alegoria para o circo midiático usado para deixar a maioria das pessoas vivendo em uma realidade virtual, ilusória, quase que em estado dormente enquanto são oprimidos e escravizados pela busca do lucro ilimitado?

Os romanos chamavam isso de “pão e circo” – hoje é só circo mesmo, porque o pão só pagando. Se não acredita em mim, repare na cor da pílula que Neo deve tomar para sair da Matrix e na cor da que deve tomar se quiser continuar vivendo na ilusão… Preciso dizer mais?

O bacana da trilogia Matrix é que ela começa nos convencendo que Neo é o “novo Jesus Cristo”, alguém dotado de poderes especiais, praticamente sobrenaturais, que tem a missão de salvar os seres humanos do julgo das máquinas. Tratado como terrorista pelas “autoridades” daquele mundo virtual, Neo tem que lutar também contra seus próprios semelhantes, contra aqueles a quem deseja salvar, mas que podem ser usados pelos agentes a qualquer hora.

Basta lembrar do que diz Morpheus a Neo, em uma das cenas cruciais do primeiro filme: “A Matrix é um sistema, Neo. Aquele sistema é nosso inimigo. Mas quando você está lá dentro, o que você vê? Empresários, professores, advogados, carpinteiros. As mentes das pessoas que estamos tentando salvar. Mas até que tenhamos sucesso, essas pessoas ainda são parte do sistema e isso faz deles nossos inimigos. Você precisa entender que a maioria dessas pessoas não está preparada para ser desplugada. E muitos deles estão tão machucados, tão dependentes do sistema que vão lutar para proteger ele”.

Mais uma alegoria óbvia: os agentes Smith só conseguem “entrar” dentro de quem é alienado da realidade em que vive. Lembram do traidor Cypher (o Judas da trilogia) dizendo “a ignorância é uma benção”? Pois para muitos é mesmo.

Assim, Neo e seus amigos realmente acreditam, como Che Guevara e tantos outros revolucionários, que é por meio da luta armada que conseguirão vencer as máquinas e libertar seu povo oprimido. E fazem isso com grande elegância em cenas de primor técnico, ao som da trilha sonora vibrante de Don Davis.

Mas, surpresa! No final da trilogia, descobrimos junto com os protagonistas que as máquinas, em sua infinita capacidade lógica de manipulação da primitiva e emocional mente humana, haviam incorporado o conceito de “salvador” dentro da Matrix simplesmente para sanar uma falha sistêmica. Ou seja, Neo não era o novo Jesus Cristo nem Che Guevara, mas sim apenas mais um peão no jogo de controle feito pelas máquinas para continuar escravizando a raça humana.

Aqui mais uma alegoria clara: a religião institucionalizada é algo que pode ser usado para controlar as mentes e as ações das pessoas, fazendo-as acreditar que a felicidade e a redenção se encontram fora delas, nas mãos de um deus ou um salvador dotado de poderes mágicos ao qual devem orar e, preferivelmente, temer.

Mas Neo tinha de ser convencido pela Oráculo, um programa criado para simular as emoções humanas e trazer equilíbrio à Matrix, que era realmente o salvador, só para descobrir no final de sua jornada que era apenas um bug do sistema que carregava o código que iria dar um “reload” na Matrix e iniciar sua nova versão. Até que o sistema ficaria instável e um novo Neo apareceria para fazer tudo de outra vez.

Só que as máquinas não previram que Oráculo iria adquirir sensibilidades humanas e agiria, movida pela compaixão e empatia, para desestabilizar a equação criada pelo Arquiteto a fim de promover a paz entre homens e máquinas. Assim, na versão Neo 7.0, Oráculo incluiu dois itens a mais na jornada do “salvador”: o amor por Trinity e um vírus no agente Smith que o levaria a contaminar toda a Matrix.

O primeiro item leva Neo a optar por salvar sua amada ao invés de dar “reboot” na Matrix e salvar a humanidade, enquanto o segundo leva a Matrix à beira da destruição. Portanto, Oráculo causa uma revolução ao forçar as máquinas a fazerem as pazes com os humanos, pois somente o Neo do mundo real poderia voltar à Matrix para destruir o virus Smith.

Enfim, Neo torna-se realmente o “salvador” e sacrifica-se, não para alcançar a glória ou dar uma lição de moral, mas sim para salvar as máquinas e livrar a humanidade da opressão e da ilusão… Simplesmente genial!

Claro que não vou agradar a todos com essa minha interpretação da trilogia Matrix, mas tudo bem. Como disse o próprio Morpheus: “Não é possível explicar a ninguém o que é a Matrix. Você tem que ver com seus próprios olhos…

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