Jair Ventura venceu o preconceito e firmou-se como treinador. O que ofereceu em troca? Resistência aos técnicos estrangeiros

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Uma das equipes mais bem montadas do Brasil é o Botafogo do Rio de Janeiro. Destemido, guerreiro, forte no contra-ataque e sem medo de se entregar, certamente será páreo duro para o Flamengo na Copa do Brasil e o Gremio na Copa Libertadores. Boa parte deste êxito deve-se a Jair Ventura, filho de Jairzinho, o furação da Copa de 1970.

Que infelizmente ao invés de exibir uma mente arejada e moderna, não só nas ideias, mas também no comportamento, exibiu o que existe de pior no mundo da bola: corporativismo e preconceito. Em entrevista na noite de segunda feira ao Canal Fox Sports, o comandante alvinegro, em resumo, posicionou-se contra a chegada do colombiano Reinaldo Rueda ao Flamengo.

Não há meias interpretações nas suas declarações: “Não que eu seja contra os estrangeiros trabalharem aqui, mas estamos perdendo mercado já fora. Daqui a pouco perdemos o interno. Então do que adianta se preparar, estudar? Venho fazendo cursos sempre, me preparando. As pessoas tem que primeiro olhar para cá, para depois olhar para fora. Isso (chegada de técnicos estrangeiros) eu não vejo de uma maneira legal. Respeito a decisão, ele é um grande treinador, acho que pode dar certo. Mas estou falando em nome dos treinadores, como jovem e brasileiro. Isso é muito ruim”.

A ideia central demonstra que Jair Ventura vive em uma outra dimensão. Não tem noção do próprio mundo em que trabalha. O mundo do futebol é preconceituoso. Considera, por exemplo, que negros podem ser jogadores, mas dificilmente devem exercer a função de treinadores ou dirigentes.

Ventura é negro. Queira ou não. Quebrou uma barreira e hoje é um dos únicos em atividade no Brasil. Por seus méritos e capacidade, é verdade, mas é uma exceção em um mercado dominado por brancos. Totalmente.

Eis que o Brasil tem a chance de conviver com um treinador campeão pela Libertadores, com ideias ofensivas e revolucionárias e Jair Ventura responde com resistência.

Lamento que Jair Ventura tenha vencido o preconceito, a resistência e em troca, ao invés de fraternidade e solidariedade, responda com uma atitude, na melhor das hipóteses com viés equivocado.

Moral da história: não adianta o futebol contar com milhões nos cofres se em termos de costumes ainda vivemos de migalhas. Isso tem que mudar.

(Texto de autoria de Elias Aredes Junior)

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