Minha visita na Fundação Casa. Impressões e reflexões

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A viagem de carro durou 20 minutos. Passei por ruas e avenidas já conhecidas. Percorri uma pequena estrada de terra. O carro manobrou, ultrapassou um portão e estacionou. Era a chegada ao ponto final. Uma unidade da Fundação Casa, em Campinas. Unidade Andorinha. Um convite para falar aos garotos internados. Tema:mercado de trabalho.

Ultrapassamos um, dois portões de ferro e entramos na unidade. Entrego carteira, celular e chaves a equipe de segurança. Revista minuciosa. Tudo liberado, começa um tour para explicar o funcionamento do local.

O cicerone, Clóvis Dias, um negro alto, óculos de aro fino e recentemente saído de uma cirurgia de redução de estômago. Antes da palestra, acompanhado de um rapaz que também é visita, ele me explica as funções e dependências da unidade.

As salas que ministram aulas aos estudantes das 07h até 12h20; locais designados para diversos cursos e com profissionais contratados pelo Estado. As aulas não são cascata. Na ocasião, uma professora de informática já estava pronta para atuar.

Clóvis mostra as dependências do ambulatório e da sala de psicologia. São locais designados para que profissionais ouçam as garotos, entendam suas angústias, conflitos e despertem neles a vontade e a disposição de sair do mundo do crime. Clóvis pega uma outra chave e convida para subirmos dois lances de escada. São os alojamentos. Ou celas dependendo do ângulo de análise. Estavam fechadas.

A ROTINA

As explicações davam exata medida da rotina vivida pelos adolescentes. Os quartos são dependências pequenas, bem ajeitadas, com colchão, roupa de cama e uma mesa para fazer refeição. A televisão fica em sala ao fundo do corredor. Pergunto se eles assistem. Clóvis me explica que o aparelho é posicionado de maneira que todos possam acompanhar a partir do quarto, sem necessidade de saída. Em outra dependência, uma biblioteca, em que os garotos tem acesso a livros fornecidos por doação ou pelo governo do estado. Ás quintas-feiras, todos podem retirar uma obra, troca-la com um companheiro e assim utilizar o seu tempo na leitura. Chama minha atenção a quantidade de obras de Lima Barreto, que negro, sofreu com o preconceito racial e foi reconhecido após sua morte.

O que mais chamou minha atenção foi o chuveiro. A torneira fica do lado externo. Um integrante da equipe de monitores abre a torneira e o garoto internado pode tomar banho. Claro, desde que seja no horário determinado. Algo é certo: quando são 22 horas as luzes são apagadas e o toque de recolher é decretado. Tudo recomeça as 06h do dia seguinte, com o despertar, o café da manhã e as aulas, com a inclusão do intervalo.

QUADRA PARA ESPORTE E LAÇOS AFETIVOS

Clóvis nos convida para irmos ao topo. Ali está quadra de esportes. Ampla, com demarcações para a prática de futebol de salão e basquete. Clóvis explica que aquele é o local para as visitas no sábado. Ali, os garotos recebem suas mães e parentes. Pensei comigo o paradoxo: um local designado para competição vira um espaço de exercício de amor e esperança. De que algo pode mudar e um novo pode ser seguido.

Descemos as escadas, rompemos os portões e chegamos ao local da palestra. Um grande corredor com diversas salas para cursos e ministrações de eventos. Os garotos circulam no local com desenvoltura e com um uniforme padrão: calça cumprida azul ou uma bermuda verde. E camisa branca.

PALESTRA

Após a separação das turmas começa a palestra. Tinha dados, estatísticas e realidades na cabeça para demonstrar para eles sobre o mercado de trabalho. Ao observar todos posicionados, sentados em suas cadeiras, confesso que desmontei por dentro. Constatei rostos tristes, cabisbaixos, de gente que reconhece seus crimes e erros, mas que não vê uma saída para mudar.

Virei meu roteiro de cabeça para baixo e iniciei falando algo sobre futebol. Perguntei sobre os times e o ambiente descontraiu. A partir daí, não sei se por obra divina ou pela memória, insisti com eles sobre a necessidade de colocar a paciência como virtude principal. Estabelecer objetivos de curto, médio e longo prazo e apostar na acumulação de conhecimento como alicerce da construção de uma carreira. Qualquer um.

Aos poucos, eles se soltaram. Um deles, em sinceridade cortante disse que não vislumbrava validade no fato de trabalhar um mês inteiro para ganhar R$ 1500 ou um salário mínimo e ver o dinheiro desaparecer.

Imediatamente, um outro garoto discordou dele e contou sua história: cometia delitos e infrações e resolveu parar. Como? Vendia pano de prato nas ruas de uma cidade da região metropolitana de São Paulo. Passou a sentir o prazer de ganhar o dinheiro honestamente quando foi encaminhado para a Fundação Casa. Resultado: não viu seu filho nascer no dia de Natal. “Faltam 70 dias para sair daqui. E quando sair eu vou trilhar o caminho da decência”, disse o garoto, que não devia possuir mais do que 18 anos.

Foram 40 minutos de conversa e troca de ideias. Confesso que me impactaram. Em primeiro lugar porque poderia ser um filho ou sobrinho meu. Eu poderia viver o drama carregado por mães e pais.

São garotos considerados primários, mas que me conduzem a perguntas: quantos talentos estão ali sendo desperdiçados? Quantos desses garotos também tiveram negadas oportunidades por residirem na periferia? Existem casos irremediáveis? Sim. Isso não quer dizer que não existam também casos que não consigam recuperação. Apesar dos percalços e da assistência diminuta do Estado, os trabalhadores da Fundação Casa

Viabilizam casos de ressocialização.

Para muitos do que leem este texto, estes garotos são invisíveis. Consideramos que o extermínio é a solução. Não entre nesse engano. Existem sim adolescentes que são criminosos e capazes até de matar. De retirar vidas em um estalar de dedos. Mesmo assim, nós enquanto formadores de opinião devemos lutar de modo incessante para que aqueles com desejo de mudar de vida tenham a oportunidade de recomeçar. E auxiliar na construção de uma sociedade mais humana.

(texto de autoria de Elias Aredes Junior)

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