Dória, ovos e o valor perdido da democracia cotidiana

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A noite de segunda-feira foi invadida com milhares de vídeos no Facebook sobre um ovo atirado no prefeito de São Paulo, João Dória. E sua automática resposta ao acusar o ex-presidente Lula e seus aliados.

Recordei os constrangimentos passados por Guido Mantega, Alexandre Padilha, Eduardo Suplicy, entre outros políticos progressistas. O roteiro era o mesmo: os políticos condenavam, os aliados protestavam e os oposicionistas, no fundo, vibravam com a situação.

Protestos, ovadas, constrangimentos. Tudo isso faz parte de um pacote nefasto que não queremos encarar: perdemos o sentido de democracia. Não posso considerar o impedimento de Dilma como a largada. Nada disso. Nem a eleição de Collor, FHC, Itamar ou agora de Michel Temer. A escalada de intolerância começa em todos nós.

De modo sorrateiro. Começa quando você considera normal o marido não ouvir aquilo que esposa tem a dizer. Inicia quando o homem que é casado ( mesmo que esse exemplo seja em número minoritário) não se entende com a esposa.

O autoritarismo inicia quando você não entende e é incompreensivo quanto a opção sexual do semelhante. A falta de democracia é iniciada quando você não respeita o voto alheio e parte para o escracho, nunca para o embate de ideias.

Vivemos dias de intolerância. Não aceitamos a ideia do semelhante. Algumas vezes temos uma reação violenta não porque discordamos do que o outro diz e sim porque simplesmente queremos colocar nossa visão. Queremos ser ouvidos. E respeitados. Alicerce de qualquer ambiente democrático.

O quadro chegou a tal ponto que os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, vistos como conciliatórios e voltados a inclusão, hoje são vistos como um erro. O correto seria ir para guerra. Ou para o pau, como diriam os chulos.

Nesse ambiente, o que ocorre? Simples: hoje os formadores de opinião não são aqueles que encantam pela formulação de ideias e conceitos e sim quem parte para o escracho e abraça a violência inconsequente. Claro, desde que seu bolso esteja entupido de dinheiro.

Faça uma revisão e comprovará. Hoje um dos principais humoristas do Brasil não tem a sutiliza, a cultura e a erudição de Jô Soares em seus áureos tempos e sim é adepto do escracho contra minorias. Você sabe de quem falo.

No jornalismo, então, a tragédia é ampla, geral e irrestrita. Os dois programas de rádio com tema de jornalismo político em São Paulo são ancorados por uma pessoa que tem orgulho de ter criado o termo “petralha” e a outra tem processos por plágio movidos pelo sindicato dos Jornalistas do Paraná. Ideias? Propostas para o Brasil? Nada. É a cultura do Meme que triunfa.

Pela viés de esquerda, partidos como Psol tem figuras como Luciano Genro dotada de um discurso separatista, sectário, voltado ao isolamento das forças progressistas. Sem chance de conversa com o contrário. O PT também tem tais personagens.

Enquanto isso, uma pessoa como Eduardo Suplicy, conhecido por seu perfil pacifista, voltado ao diálogo é taxado até como “bobo” dentro de parte das hostes petistas. Não tem algo errado? Eu acho que tem.

No espectro conservador não fica atrás. Poderia nutrir reservas em relação ao falecido governador de São Paulo, Mário Covas. Só que em instantes emblemáticos, abriu os olhos e ouvidos para tentar um acordo que viabilizasse entendimento entre diversas forças políticas. Basta dizer que ele foi contra a entrada do PSDB no governo Collor e no segundo turno das eleições municipais de 2000, mesmo doente, encontrou forças para hipotecar apoio a candidata do PT, Marta Suplicy.

E hoje? Um dos principais políticos do PSDB, João Dória, tem como sua principal bandeira política ser contra o PT. Só isso. Nada mais. Projetos, ideias para o Brasil, estimativa de médio e longo prazo…Nada feito.

Esqueça. Sem contar que ao patrocinar esta espiral de ódio, Dória esquece algo fundamental: na sua visão, os eleitores do partido então devem ser preteridos? Desprezados? Eliminados da terra? Pois é. Pergunto: o que isso acrescenta ao debate político? Nada.

Em tese, o ato contra Dória é condenável. Como também é condenável o seu discurso de ódio contra um partido ou determinado perfil de eleitor. Só que proponho uma reflexão: qual será o saldo final desta fábrica de ressentimento? Pense.

Sei que muitos apostam que tal cenário atual deveria desembocar em uma revolução com derramamento de sangue e quebra da norma institucional. Bem, respeito quem pensa assim, mas não abraço a tese. E insisto em algo que escrevi na semana passada: o Brasil só avançou de modo expressivo em governos eleitos pelo povo e que adotaram a temperança e a paciência política como trunfos: Vargas, JK, FHC (ou vamos esquecer do Fora FHC?), Lula e Dilma.

A ditadura Vargas, apesar dos avanços trabalhistas, tem um saldo deplorável de arbítrio de violência, morte e censura. A ditadura militar de 21 anos nem precisamos entrar no mérito.

Um dia você chegará a conclusão que tanto a direta como a esquerda brasileira só vão colaborar com o desenvolvimento do país quando deixarem o escracho de lado e entenderem que só o embate de ideias, o poder de convencimento são valores preciosos da democracia.

O resto apenas produz sujeira nas páginas da história.

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